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19/07 às 09:26 Caso Bruno
 

Nem santo, nem monstro...

O desaparecimento e posterior assassinato de Eliza Samudio traz à tona a reflexão sobre como se fabricam ídolos neste país.

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Por Kátia Frizzo

 
Foto por Divulgação Gazeta de Caxias
Bruno e Elisa: uma tragédia brasileira

A sociedade brasileira se acostumou a ver-se refletida com orgulho nos ídolos do futebol e acabou de ter seus sonhos abalados pelos acontecimentos das últimas semanas: por um lado, perdemos uma copa do mundo e a chance de sermos o único país HEXACAMPEÃO DO MUNDO. Tristeza para os jogadores, para a equipe técnica e para toda a torcida do país.

Tragédia cotidiana

Enquanto sofríamos esta derrota no outro lado do mundo, por aqui acontecia uma tragédia cotidiana envolvendo um triângulo de “efes”: futebol, fama e família, que deixou estarrecidos igualmente os torcedores, jogadores e outros atores da trama, envolvendo um ou outro dos pólos da discórdia instalada e escancarada pela mídia aos quatro cantos do mundo. 

Reflexões

Alguns elementos da trama e da vida dos principais atores do crime envolvendo Bruno e Eliza nos permitem buscar uma nova perspectiva para a abordagem dos fatos e das informações noticiadas até agora pelos meios de comunicação de massa. Pretendemos refletir aqui sobre o que é óbvio e o que é o inédito neste processo que envolve e comove pessoas reais e que falam a mesma língua que nós, sem nos precipitarmos em julgamentos fáceis e previsíveis sobre o comportamento dos envolvidos na tragédia.

Combinação explosiva

Sobre o goleiro Bruno, sabe-se que teve uma infância difícil, sem os pais, que foi criado pela avó materna e viveu sempre em condições de privação material e financeira, até acontecer o seu sucesso nos campos de futebol profissional, onde passou a ser um jogador de destaque e valorizado com altos salários, pelo menos para o padrão de remuneração da maioria da população brasileira.  O dinheiro, a fama e a exposição à mídia formam uma das combinações mais explosivas para a subjetividade do brasileiro e integram o imaginário nacional da imagem do sucesso.

Notícia relevante

 

Sobre os estudos de Bruno, nenhuma notícia relevante. Afinal, ele precisa ser bom com as mãos e o corpo, não com a cabeça. Para muitos, isto basta, e é só o que se espera de um jogador de futebol neste país, que seja bom no que faz, não precisa de mais nada, nem pensar. Aceitamos os altos salários deles para que nos deem o prazer dos gols e das defesas dos campeonatos repetidos ano a ano.

Desculpas

No momento em que discutimos os sofríveis índices do IDEB, desculpamos nossos ídolos por falar errado ou da falta de educação familiar e escolar, assim como os eximimos das críticas pelos altos salários, enquanto não toleramos que nenhum político ou funcionário de alto escalão ganhe apenas ¼ do que ganha  o goleiro Bruno, que sabemos que sequer é um dos jogadores que mais ganha neste país.

Do outro lado da trama, está a Eliza Samudio, igualmente de origem pobre e apaixonada por chuteiras desde criança, quando frequentava com o pai os estádios de futebol no Paraná. Também, como Bruno, sofreu com o abandono da mãe e teve um pai que não foi um exemplo de respeito e educação para suas filhas, uma vez que foi acusado pela tentativa de estupro de outra filha de 10 anos, alguns anos atrás. O fato revela que ele não conseguia distinguir muito bem entre o papel de pai e de homem, elemento essencial para uma boa educação da vida sexual e afetiva dos filhos, e que custou a vida de sua filha Eliza.

Socialmente importante

Apaixonada pelos gramados, louca pelas chuteiras e sem uma referência feminina para depositar suas aspirações e processos de identificação, Eliza buscou na carreira de modelo a possibilidade de tornar-se socialmente importante.

Sombra de ídolos

Sem sucesso como modelo, buscou viver na sombra dos ídolos que viviam nos gramados, usavam chuteiras e tinham acesso fácil à mídia, buscando sair do anonimato e entrar para o estrelato. Mais uma vez, para isto o corpo basta, não precisa muito mais, parece estar tudo completo, afinal, modelo ou amante de jogador não precisa ter talento ou educação, precisa SER BONITA, e nada mais.

Folhetins policiais

Aí vem a tragédia que liga estes dois mundos, que podem parecer diferentes à primeira vista, mas que tem elementos comuns que permitem torná-lo um fato trivial para os folhetins policiais, não fosse o excesso de mídia a circular os envolvidos. Neste país de moral libertina (para os homens!) ninguém parece estranhar que Bruno, famoso e endinheirado, tivesse tantas amantes quantas quisesse, desde que mantivesse seu casamento com a princesa Dayane preservado dos holofotes.

Posições almejadas

Belas mulheres dão mais notícia que um bom casamento. Também não parece estranho que Eliza desejasse uma carreira de modelo e que fizesse do corpo seu maior aliado na conquista das posições almejadas. Afinal, atualmente, modelos aceitam tirar a roupa em frente à televisão apenas para vender um carro, ou mais cerveja.

Suporte

O que não é óbvio, ao que parece, é a pergunta pelo terceiro “f”, a família. Onde ela entra nisso tudo? Ainda que correndo o risco da contra-argumentação de qualquer leitor, ousamos dizer que o elemento não-óbvio na história de Bruno e Eliza está na tentativa frustrada de ambos de constituir uma família, quando não tiveram suporte suficiente na infância para perceber os meios legítimos de construí-la.

Castelos de areia

Isto não é uma crítica à avó de Bruno nem ao pai de Eliza, que fizeram o que estava ao seu alcance para dar aos dois o melhor de seus mundos, mas às imagens de castelos de areia construídos diariamente nas telenovelas e programas de audiência e na ausência de escola na vida destes jovens, que se destacaram apenas pelo que sabiam fazer de seus corpos, já que pouco podiam com o que tinham nas suas cabeças.

Carreiras cobiçadas

As carreiras de modelo e jogador de futebol são muito cobiçadas por jovens do país inteiro que não são atraídos pelos estudos, pois através delas se constrói a imagem paradisíaca da felicidade instantânea, onde os bens materiais conquistados com o dinheiro abundante substituem as imagens de pobreza e dificuldades, e as relações casuais e a fortuitas atraídas pela imagem exposta à mídia substituem a dificuldade dos relacionamentos às vezes difíceis, mas verdadeiros e duradouros.

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