O cardiologista Roque Marcos Savioli, que também é doutor em medicina da USP e integrante da Association Medicale International de Lourdes e autor do livro “Um coração saudável” focaliza uma questão polêmica, a interferência da fé em nossa saúde física e mental.
Segundo o médico, “por mais polêmica que seja a discussão sobre a interferência da fé em nossa saúde física e mental, esse assunto transcende os nossos consultórios quando transmitimos aos pacientes um diagnóstico desfavorável”.
Questionamento
Savioli questiona se devemos permanecer calados, frios ou até sarcásticos quando nos fazem referência à pretensa proteção divina? Ele diz que “evidentemente que não, pois a nossa impotência profissional sempre é reafirmada pela inexorabilidade do sofrimento e da morte. Além da nossa competência profissional e técnica, não podemos nos esquecer que à nossa frente pode estar um ser que sofre e que, independente da sua doença, está ali para ser ouvido e muitas vezes para ter o seu sofrimento compartilhado com aquele que o atende”.
Ceticismo
O médico lembra que “todo o cartesianismo e o ceticismo de vários cientistas ficaram extremamente abalados com os acontecimentos que ocorreram em muitos santuários marianos de todo o mundo. Incapazes de provar eventuais fraudes, foram obrigados a admitir os fatos, embora não conseguissem explicá-los. Isso ocorreu em Lourdes, pequena cidade dos Pirineus Franceses, onde anualmente acontecem milhares de curas inexplicáveis segundo a ciência, atribuídas à fé e às orações pelo comitê internacional de médicos”.
Cura milagrosa
Revela ainda que “em 1903, Aléxis Carrel, médico cirurgião de Lyon, França, testemunhou publicamente a cura milagrosa de um peregrino em Lourdes. O episódio gerou um enorme desconforto com o professor titular de cirurgia da universidade onde fazia seus estudos que terminou por desligá-lo do curso. Este fato o obrigou a se transferir para os Estados Unidos, onde anos mais tarde receberia o Premio Nobel em fisiologia”.
Pentecostalismo
Savioli destaca ainda que “com a abertura da Igreja Católica ao pentecostalismo cristão, iniciado nos Estados Unidos nos anos 70, reuniões de oração se multiplicaram e com elas uma quantidade enorme de curas em todo o mundo. A ciência não ficou alheia ao que acontecia. Grupos médicos começaram a analisar os casos, inicialmente apenas para verificar possíveis fraudes, mas depois para tentar compreender a essência dos fatos”.
Cursos
Outro foco do cardiologista é que “a partir do final dos anos 90, surgiram cursos, congressos, eventos enfocando a relação entre a espiritualidade e a saúde, dando como frutos uma enormidade de trabalhos científicos publicados no mundo todo. São estudos qualitativos como entrevistas, grupos focais e inquéritos; e quantitativos como coortes (status de exposição), casos-controles, estudos transversais, ensaios clínicos randomizados, metanálises e revisões da literatura. Os resultados mais consistentes que saíram dessas publicações demonstraram associação entre freqüência a serviços religiosos e redução das taxas de mortalidade, especialmente no sexo feminino”.
Fragilidade
Observa que “muitas críticas foram feitas por vários pesquisadores alegando a fragilidade metodológica dos estudos, principalmente pela existência de inúmeras variáveis não controladas durante os trabalhos. Recentemente, no entanto, os trabalhos publicados têm recebido maior atenção metodológica, controlando-se variáveis que poderiam influir nos resultados, tais como, sexo, suporte social, idade e renda”.
Envolvimento
Para Savioli “é extremamente interessante o estudo da relação entre o envolvimento religioso e a saúde, aspecto que tem ocasionado aumento significativo das pesquisas nessa área, principalmente com a realização de exames não invasivos capazes de reconhecer áreas cerebrais envolvidas durante a oração, tais como a tomografia computadorizada com emissão de positrons, o PET scan e a ressonância magnética funcional”.
Mecanismos
Segundo o médico “existem inúmeras explicações dos possíveis mecanismos envolvidos na relação entre envolvimento religioso e estado de saúde como a prática de ritos e crenças que podem levar as pessoas a viverem com níveis de estresse menores ou a fazerem experimentar emoções positivas como a capacidade de perdoar promovendo, dessa forma, uma melhor qualidade de vida”.
Pesquisas
Conforme o cardiologista “um grande número de pesquisas tem demonstrado a associação dos efeitos negativos do estresse sobre o estado de saúde, ocasionando várias patologias, entre elas a doença cardiovascular, principal responsável pela mortalidade nos dias de hoje. Por isso, o interesse dos pesquisadores vem se dirigindo à interação entre os sistemas imunológico, neurológico e psicológico, que exerce papel preponderante na gênese dos benefícios que o envolvimento religioso poderia trazer aos indivíduos no tratamento auxiliar de várias patologias, como hipertensão arterial, doenças cardiovasculares, depressão, ansiedade, entre outras.”
Mecanismo
Concluindo ele ressalta que “o envolvimento religioso ou espiritual é uma das grandes forças que atuam no mecanismo de defesa contra o estresse crônico, podendo ser excelente no auxílio à prevenção ou combate de inúmeras moléstias e também no aumento da expectativa de vida”.