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20/02 às 18:00 FESTUVA
 

A epopeia da primeira transmissão em cores

Comemora-se, neste domingo, dia 19, os 40 anos da primeira transmissão a cores da tevê brasileira. Ela aconteceu durante o desfile dos carros alegóricos na Sinimbu no evento de 1972.

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Por João C. Garavaglia

 
Foto por Arquivo Gazeta de Caxias
Desfile dos carros alegóricos em 1972: a 1ª transmissão colorida da tevê

Mas para que isso ocorresse foi necessário superar muitos obstáculos nos meandros do poder e dos grandes meios de comunicação sediados no centro do país. Numa entrevista concedida à Gazeta em fevereiro de 1998, e publicada na edição número 193, o caxiense Hygino Caetano Corsetti, ex-ministro das Comunicações do Governo do General Emílio Medici (1969/1974), falou de como foi implantada a tevê a cores em Caxias e por que a Festa da Uva de 1972 foi o evento escolhido para inaugurá-la.

Corsetti lembra que “foi extremamente difícil sua implantação, pois havia duas correntes: a oficial, através do Conselho Nacional de Telecomunicações, que entendia ser o modelo alemão PAL-M o melhor, por não apresentar imagem dupla em determinadas áreas. A outra corrente era da Rede Globo e os Diários Associados que queriam o sistema americano NTSC. Como a Globo tinha muitos compromissos com o sistema americano ela não queria o alemão. Foram pressões fortíssimas, mas mesmo assim, optamos pelo PAL-M. Não tínhamos instalação dos troncos da Embratel em todo o Brasil”.

Corsetti revela que “ficou acertado que a primeira transmissão teria que ser ao ar livre. Não havia pessoal técnico para transmissões noturnas. Ficou decidido que o teste seria feito no carnaval do Rio de Janeiro. Mas surgiram problemas, resistências. Pensamos em diversas outras festas, até que surgiu a ideia de fazer esta transmissão direta de Caxias na Festa da Uva. Sabia que algumas vozes poderiam dizer que por ser caxiense estaria beneficiando minha cidade.

O presidente Médici me apoiou e a decisão foi tomada. Aí começaria uma verdadeira epopeia. A Globo e a Tupi foram para o ministério e disseram que não fariam nenhum teste. Mas não recuei e disse que faria a cobertura da Festa da Uva. As coisas não foram fáceis. Primeiro era preciso equipar Caxias com microondas, captar o sinal no Parque de Exposições (hoje Centro Administrativo Municipal) a Catedral, transmitir até São Ciro, onde havia uma repetidora, daí a Porto Alegre na TV Difusora (Gijhe TV Bandeirantes) cuja imagem seria retransmitida para a EMBRATEL no Rio e daí para todo o Brasil através das redes de televisão”.

Corsetti revela que “para podermos realizar a transmissão fomos obrigados a usar o canal de reserva do sistema de telefonia de Porto Alegre já instalado pela EMBRATEL, que seria gerado de Caxias através das câmeras. Era preciso equipamentos microondas que não tinha no Brasil e não era fácil de comprar. Aproveitamos que o governo de Pernambuco estava adquirindo no Japão o equipamento, o mesmo usado pela EMBRATEL, para instalar três canais naquele estado. Autorizamos um, porque não tínhamos dinheiro para pagar. Mas o problema era como trazer os equipamentos do Japão para Caxias”.

 

Na abertura da Festa os equipamentos

falharam, mas no desfile foi um sucesso

 

O ex-ministro recorda: “Tínhamos apenas 20 dias. Ligamos para o Japão para conferir se os equipamentos funcionavam, se tinham sido testados. Chegamos à conclusão que se o material passasse por toda a burocracia alfandegária no Rio, poderia atrasar muito. Fui ao ministro Delfim Netto e lhe expliquei a situação. Acertamos que, ao chegar no Rio, o material seria colocado num avião da VARIG, com dois funcionários da alfândega que conferiria todo o material em Caxias, para ganhar tempo. Isso aconteceu, foi aberto aqui e tudo conforme a lei”.

Corseti lembra que “vieram dois técnicos japoneses para fazer todo o serviço. Com muita eficiência eles instalaram todos os equipamentos. Estávamos com os dias contados. Faltava apenas um dia para a inauguração da Festa da Uva. Lembro-me que o dia estava nublado, ameaçava chover, e caiu uma chuvarada, quando o presidente Médici inaugurou a festa no Parque de Exposições. Para o nosso azar o equipamento naquele momento falhou. Foram instantes de muita aflição. O presidente Médici na hora não ficou sabendo de nada, pois ele não tinha monitor. Só foi informado depois. Sei que um dos técnicos japoneses queria se suicidar. O equipamento instalado no prédio das Lojas Magnabosco havia falhado. Mandamos buscar, às pressas, um modulador com um técnico em Porto Alegre, mas ele não conseguiu aterrissar por causa da chuva. O equipamento veio através de uma camionete. E quando já estávamos no almoço no Rincão da Lealdade, veio a informação de que o defeito havia sido localizado. Na parafernália de cabos e fios houve o desligamento de um  cabo”.

A partir daí, segundo Corssetti, “a salvação seria o desfile dos carros alegóricos à tarde. Porém, na hora do almoço caiu uma chuva torrencial sobre Caxias e o presidente, por volta das 14h, me disse que iria voltar a Poeto Alegre. Mas como o presidente sempre foi um pé quente, no momento que estava saindo parou de chover e o tempo começou a melhorar. Telefonei para o Isac Menegotto, responsável pelo desfile, e ele disse que estava tudo preparado. Fomos para o centro de Caxias e o desfile saiu. A transmissão foi perfeita. O presidente o acompanhou com um monitor. Ele ficou eufórico. Durante o desfile não paravam de chegar telegramas de todo o Brasil cumprimentando pela transmissão que, através das redes Globo, Tupi e Record, era exibido com imagens da tevê Difusora de Porto Alegre, retransmitido através da EMBRATEL”

Ele recorda ainda que “a Globo mandou para Caxias seus principais atores. Eles estavam aqui desde a manhã, entre eles Francisco Cuoco, Tarcisio Meira, Glória, Tônia Carrero. Na verdade, a Globo não estava torcendo para que a transmissão desse certo. Afinal, ela se negou a fazer o teste e não concordava com o sistema adotado. Na parte da manhã, quando houve os problemas havia uma indisfarçável felicidade pelo fracasso inicial. Mas, à tarde, todo o Brasil aplaudiu”.

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