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23/08 às 09:01 Trem Regional
 

Locomotivas próximas de silvar novamente

A mobilização em prol do retorno do trem à região nunca esteve tão avançada. Após anos de tratativas e debates, finalmente algo de concreto começa a sair do papel.

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Foto por Rodrigo Chernhak
Estação Férrea pode ser reativada se os estudos envolvendo o trem regional de passageiros for aprovado pelo Ministério dos Transportes

Caxias do Sul foi contemplada pelo governo federal estando entre os 14 projetos selecionados, ainda em 2009, pelo Programa de Resgate do Transporte Ferroviário de Passageiros, do Ministério dos Transportes. O trecho de 63 km que liga Caxias a Bento Gonçalves, passando por Farroupilha, Carlos Barbosa e Garibaldi foi escolhido por ser um trajeto curto e abranger uma região com grande densidade populacional, sendo também um destino turístico importante.

 

Entrevistas iniciadas

Os estudos para tornar possível, de fato, esse projeto, iniciaram nesta sexta-feira, 20 de agosto, com cinco meses de atraso. Uma parceria entre a Universidade de Caxias do Sul (UCS) e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) será o ponto inicial para tornar o sonho de ouvir novamente o silvo da locomotiva uma realidade. Alunos da UCS estão realizando uma série de entrevistas que ajudarão a avaliar a reativação do transporte ferroviário de passageiros na região.

 

Entrevistadores

O coordenador executivo do Comitê do Trem e Desenvolvimento Regional da Serra Gaúcha, Paulo Thimoteo, revela que os entrevistadores estão localizados na entrada de Forqueta e na rodoviária da cidade e, com o auxílio da Polícia Rodoviária Federal, estão aplicando à população um questionário socioeconômico, além de pesquisas de preferência por meios de transportes e indagações sobre origem e destino. As entrevistas ocorrem das 6h às 10h e das 16h até as 20h neste sábado e domingo e na terça-feira, 24.

 

Análise

Já os técnicos da UFSC estão realizando análises da malha ferroviária, já existente neste trajeto. Estes dados são de extrema importância, já que apontarão o tamanho do investimento que necessitará ser realizado para a recuperação da malha. Após todos esses estudos finalizados, em dezembro será entregue a documentação oficial ao Ministério dos Transportes, que reunirá informações sobre o custo de implantação, tipo de veículo a ser utilizado, frequência das viagens, destinos mais procurados e o modelo mais adequado para a administração da rota: se é o poder público, o setor privado ou a formação de uma parceria público-privada. Se tudo ocorrer conforme o planejado, ouviremos o silvo da locomotiva pela primeira vez desde o final dos anos 80, quando o último trem passou pela cidade.

 

Concorrência

Atualmente, o trajeto entre esses municípios da serra gaúcha é realizado pela empresa viária Ozelame, que detém a concessão do trecho desde a sua fundação, em 1938. Especula-se que a vinda do trem de passageiros seria uma forte concorrência para a empresa, que ainda faz a ligação com Coronel Pilar, Roca Sales, Encantado, Antônio Prado e Nova Roma do Sul, com cerca de 30 ônibus em operação. “O trem é um futuro certo, mas a Ozelame já está investindo em outros mercados para o futuro”, avisa o gestor Luiz Henrique Barcarolo.

 

 

 “As audiências se tornaram campanha política”

 

 

Barcarolo ainda reitera que “não estamos preocupados, no momento, com o trem de passageiros, mas nos preocupamos com o trem de cargas”. Segundo ele, o transporte ferroviário de cargas seria mais útil à cidade, pois facilitaria o escoamento da produção e também aliviaria o tráfego nas rodovias. “Os estudos feitos estão errados, para cada ônibus existem 50 caminhões no mesmo trecho e no mesmo horário”. O gestor também mostrou seu desapontamento com o rumo que a discussão em torno da ferrovia tomou. “As audiências públicas que trataram da questão se tornaram campanha política”.

Carga ou passageiros?

Há 21 anos na empresa, o diretor operacional, Marcos Aurélio Ozelame, revela números interessantes que merecem ser analisados. “Há 30 anos levava-se 30 minutos para ir a Farroupilha, de rodoviária à rodoviária. Hoje se demora 40, 45 minutos. Para ir a Bento, demora-se uma hora”. O que o diretor mostra é que, logicamente, o número de habitantes aumentou consideravelmente neste tempo, assim como, consequentemente, o número de veículos nas rodovias e, logo, a intensidade do tráfego. Mas o que ele também afirma é que o número de veículos de carga também cresceu vertiginosamente, provocando grande impacto no trânsito intermunicipal. “Por que não o trem de carga? É importante avaliarmos a primeira necessidade (da cidade). É melhor retirar 30 veículos de passeio ou 300 veículos de carga?”, indaga o diretor, comparando a capacidade do trem de passageiros e do trem de cargas.

Próximo passo

“O transporte ferroviário de cargas é um projeto à parte do trem de passageiros, que é outra reivindicação nossa”, esclarece Nelson Sbabo, vice-presidente de comércio e representante da CIC no Comitê do Trem e Desenvolvimento Regional da Serra Gaúcha. Ele também adianta que “na semana que vem teremos uma reunião com a ALL (América Latina Logística), empresa que detém a concessão do transporte ferroviário de cargas no Rio Grande do Sul) para começar a definir a questão do trem de carga, já que no Brasil todo o sistema ferroviário de carga é privatizado”.

Aproveitamento

A vinda do transporte ferroviário de cargas para a região seria um grande avanço para a infraestrutura da cidade e para a logística das empresas, já que o tempo do escoamento da produção seria reduzido, assim como os custos do transporte e a quantidade de materiais que poderiam ser carregados. Com certeza, a vinda do transporte ferroviário de passageiros seria um grande passo para a concretização do projeto, já que parte da malha ferroviária poderia ser aproveitada. Porém, a extensão da ferrovia necessitaria ser aumentada, já que o projeto prevê a ligação com o porto de Rio Grande, ainda que de forma indireta, provavelmente passando por São Leopoldo.

 

 

“O sistema do transporte coletivo urbano

vai passar por profundas transformações”

 

 

Quanto ao trem de passageiros, assunto já anunciado, Sbabo revelou que “o sistema do transporte coletivo urbano vai passar por profundas transformações nos próximos cinco anos”. Ocorre que a malha ferroviária em Caxias chega somente até a estação de São Pelegrino, não tendo acesso a outros pontos da cidade”, disse.

Veículos leves

Revelou que “para facilitar o deslocamento, principalmente das pessoas vindas das outras cidades, estuda-se a implantação de Veículos Leves sobre Trilhos (VLT) que fariam a interligação com outros pontos da cidade, como a universidade, por exemplo, além de linhas de transporte coletivo que passassem pela estação. Sbabo citou o exemplo da capital do país. “Em Brasília existem três tipos de transporte ferroviário: o trem normal que conhecemos, o VLT para fazer a interligação dentro da cidade e ainda o metrô”.

Ministro

Outra importante jogada para viabilizar os modais do transporte ferroviário foi a vinda do Ministro dos Transportes à cidade. Paulo Sérgio Passos esteve em Caxias na quinta-feira, 19. Pela manhã visitou a unidade fabril da Marcopolo e ao meio-dia foi o palestrante da reunião-almoço da CIC. O ministro tratou do tema “as estratégias para os transportes no Brasil”, onde informou os investimentos feitos pelo governo federal nos últimos oito anos em malhas ferroviárias.

Destaques

Revelou que “quando assumimos o Ministério não havia nada, nenhum projeto. Tivemos que começar do zero, criar tudo e investimos US$ 30 bilhões, em um total de 11.800 km de ferrovias”. Ele também destacou a ação do governo nas rodovias. “95% das rodovias federais estão em boas condições, sem buracos. Nós gastamos R$ 3 bilhões ao ano para a conservação das rodovias”.

Reivindicações

Ele também recebeu um documento com as reivindicações da CIC para mais investimentos em infraestrutura, contendo o clamor da classe empresarial gaúcha sobre os trens de cargas e de passageiros, o aeroporto internacional, o fim da concessão do pedágio da Caxias-Farroupilha e o anel rodoviário da BR-116, que desviaria o fluxo do perímetro urbano da cidade, prometendo empenho nas questões reivindicadas. “Contem comigo”, resumiu.

Clima tenso

Após a explanação do ministro, o deputado federal Ruy Pauletti (PSDB) questionou os investimentos realizados pelo governo no estado e cobrou mais ações por parte do ministério. Porém, ao demorar demais em seu questionamento, foi alfinetado pelo presidente da CIC, Milton Corlatti. “Por favor, o senhor seja mais ágil e objetivo para não atrasar a agenda do ministro”.

Energicamente

Respondendo energicamente, o ministro frisou os diversos investimentos realizados pelo governo em todo o país e no estado e ainda revelou os projetos que estão para serem desenvolvidos e ganhou o apoio do vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs) e da Associação Nacional dos Transportes (ANTT), José Antônio Martins.

Bem atendidos

Ele disse que “nunca fomos tão bem atendidos como agora, ministro. Agradecemos muito a atenção dedicada ao Rio Grande do Sul. Muito obrigado”. Após a reunião, o ministro visitou as empresas Guerra e à noite viajou para a sua terra-natal, Bahia, e após compromissos voltaria para Brasília.

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